domingo, 24 de julho de 2011
Se Mark Twain tivesse um blog...
Em piadas leves ou sátiras raivosas,
o escritor fez do humor um serviço
de utilidade pública
Carlos Graieb
O escritor americano Mark Twain (1835-1910) se divertiria muito na era dos blogs. Basta folhear a coletânea Dicas Úteis para uma Vida Fútil – Um Manual para a Maldita Raça Humana para ficar com essa impressão. São cinco dezenas de textos breves sobre moda, etiqueta, alimentação, turismo, educação e vida doméstica. Twain possuía um intelecto do tipo inflamável: bastava uma faísca do cotidiano, uma notícia de jornal, para que pegasse fogo. Além disso, ele tinha uma facilidade diabólica para escrever e o desejo de se fazer ouvir. Não importava quão irrelevante parecesse o assunto, Twain não deixava idéias enfurnadas em seu cérebro. Era uma das maiores celebridades de seu tempo e, mesmo assim, escrevia aos jornais para reclamar do buraco na rua ou do serviço de gás. Não são esses os atributos essenciais para quem deseja manter um bom diário na internet? Mas, ainda que você considere bobagem esse tipo de especulação sobre um homem do século XIX, pode ficar com uma certeza: seria muito agradável ler um blog de Mark Twain. Um dos gênios literários dos Estados Unidos, e um daqueles escritores que qualquer pessoa interessada em transmitir uma biblioteca aos herdeiros não deve negligenciar, ele fazia do humor um serviço de utilidade pública.
O nome verdadeiro de Mark Twain era Samuel Clemens. Adotar um pseudônimo foi o primeiro passo na construção de um personagem lendário. Pouco antes de morrer, ele ainda dava os últimos retoques na própria imagem: foi nessa fase que adotou o hábito de só usar ternos brancos. Nenhum outro autor, com a possível exceção de Walt Whitman, representa tão solidamente o Escritor Americano. Twain queria transformar-se num ícone, e conseguiu. Nos Estados Unidos, ele já apareceu em anúncios de todos os tipos de empresa – das companhias petrolíferas às funerárias. Há rotas turísticas com seu nome. E, nem é preciso dizer, livros e filmes a seu respeito são produzidos sem parar. O diretor Ken Burns, conhecido por documentários sobre temas americanos como o beisebol, a Guerra Civil ou o jazz, voltou-se para Twain quando decidiu abordar um assunto literário. Somente nos últimos dois anos, duas biografias do autor foram lançadas, cada uma com mais de 700 páginas. Twain, contudo, é relevante porque divide, e não porque congrega. Em 1902, um observador dizia: "Um americano ama sua família. Se sobra amor para outra pessoa, em geral ele escolhe Mark Twain". Hoje a frase já não é exata. A obra-prima do romancista, As Aventuras de Huckleberry Finn, está no centro de uma guerra. É o número 5 numa lista dos 100 livros mais combatidos nos tribunais dos Estados Unidos: os que desejam bani-lo das salas de aula reclamam do uso "ofensivo" da palavra nigger (negro) e dizem que as peripécias de Huck e do escravo Jim trazem à tona tensões raciais. Há outros pontos sensíveis da cultura americana em que o autor tocou: os embates entre idealismo e materialismo, as relações entre avanço tecnológico e uso da natureza, os perigos da crença religiosa, a transformação dos Estados Unidos num império.
Os textos antiimperialistas de Mark Twain foram redescobertos recentemente e estão em voga (podem ser encontrados no Brasil no volume Patriotas e Traidores). Datam da virada do século XX e denunciam desde a presença dos belgas no Congo até o trabalho de missionários na China. Seu alvo maior foi a dominação das Filipinas pelos Estados Unidos, depois de uma guerra repleta de atrocidades entre 1899 e 1902. O ensaio mais famoso é Para Aquele que Vive nas Trevas, no qual Twain questiona a idéia de que as grandes potências "disseminam a civilização". Ele escreveu: "Não seria prudente reunir nossos instrumentos civilizadores e avaliar o estoque que ainda temos – coisas como contas de vidro, teologia, metralhadoras Maxim, hinários, gim e tochas de progresso e luz (ajustáveis, ótimas para incendiar aldeias sem necessidade de preparação)? Não seria prudente fechar os livros, calcular o lucro ou o prejuízo e então decidir racionalmente entre continuar no negócio ou vender os ativos e usar o resultado para fundar um novo sistema civilizador?". Passagens como essa são brandidas pelos opositores do governo Bush e da guerra no Iraque, e para propor a existência de um "Mark Twain de esquerda".
Se Twain vivesse hoje em dia, talvez fosse mesmo visto como um intelectual de esquerda (com o acréscimo, bastante incomum, de um senso de humor). Em sua época, contudo, ele não precisou tomar partido ou rotular-se dessa forma. E é improvável que o fizesse. Como já dito, seu serviço de utilidade pública era o riso. Às vezes ele o provocava como o piadista leve dos textos de Dicas Úteis para uma Vida Fútil, que falam de coisas pequenas e mostram como uma disposição cômica pode tornar mais suportável o dia-a-dia ou enriquecer a vida em família. Mas, em outras ocasiões, ele era um satirista enfurecido com a "maldita raça humana". Seu negócio, então, não era promover sistemas ou partidos de qualquer espécie, mas atacar os existentes. Ele jamais almejou a suposta pureza dos reformadores políticos e religiosos. "Se não puder xingar no céu, não vou morar lá", escreveu.
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