Ídolo de uma geração, símbolo de rebeldia e eterno galã, Marlon Brando
era um dos últimos monstros sagrados da sétima arte. O ator morreu aos 80 anos, em Los Angeles (EUA).
Brando, reconhecido por
ser metódico, reescreveu as regras de atuação e, com sua impactante
sensualidade, redefiniu a forma do astro de cinema masculino.
Um de seus papéis mais memoráveis foi o do mafioso Don Vito Corleone, em "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola.
Nos
últimos anos, Brando continuou a ocupar as manchetes da imprensa
mundial, não por seu talento, mas sim pelas tragédias familiares pelas
quais passou.
"Ele tinha o que se pode chamar de combinação
perfeita", afirmou certa vez o ator Rod Steiger, co-protagonista de
"Sindicato de Ladrões" (1954). "Tinha um talento incrível, era um
símbolo sexual e se negava a aceitar compromissos. Tornou-se a expressão
de uma interpretação verdadeira e realista, que nunca teria existido
sem ele", disse Steiger.
Sob a direção de grandes diretores,
Brando se transformou no principal expoente da nova geração de atores do
pós-guerra, com filmes como "Uma Rua Chamada Pecado", "Viva Zapata!",
"Sindicato de Ladrões" e "O Selvagem".
Bud, como era chamado pela
sua avó, nasceu em 3 de abril de 1924 em uma família modesta de Omaha
(Nebraska). Sua mãe era uma atriz depressiva e alcoólatra, e seu pai
era um vendedor mulherengo "com sangue composto de testosterona,
adrenalina, álcool e íra", segundo o próprio Brando.
Após ser
expulso de uma escola militar, o jovem Brando se mudou para Nova York
para estudar arte dramática na escola de Stella Adler e no Actor's
Studio, onde aperfeiçoou o "método" Stanislavsky, que consiste em
recorrer a suas próprias emoções para encarnar um personagem.
Em
1947, Brando causou sensação na Broadway com o papel do brutal Stanley
Kowalsky na adaptação da obra "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee
Williams, que logo abriu as portas de Hollywood para ele. No Brasil, o
filme ganhou o título de "Uma Rua Chamada Pecado".
Inicialmente
recusou as ofertas da meca do cinema, ao indicar em 1948 que os
produtores de Hollywood "nunca nunca fizeram um filme honesto em sua
vida e, provavelmente, nunca o farão".
Dois anos mais tarde,
estreou com grande êxito de crítica no filme de de Fred Zinnemann
"Espíritos Indômitos", onde interpretava um soldado paraplégico, antes
de trabalhar sob a direção de Elia Kazan para a adaptação
cinematográfica de "Um Bonde Chamado Desejo".
Além de render a
ele em 1952 a primeira das quatro indicações consecutivas ao Oscar de
melhor ator, o longa-metragem deixou gravada a imagem de Brando como
símbolo sexual, com sua camiseta branca suada.
Depois encarnou o
famoso revolucionário mexicano em "Viva Zapata!", também de Kazan, e
Marco Antônio em "Júlio César", de Joseph Mankievicz, antes de se
converter no símbolo da rebeldia ao interpretar o líder de um bando de
motoqueiros no filme de Laslo Benedek em "O Selvagem" (1954).
"Nenhum
de nós que estávamos envolvidos no filme nunca imaginamos que
instigaria ou incitaria uma rebelião juvenil", escreveu Marlon Brando em
sua biografia autorizada "As Canções que Minha Mãe me Ensinou",
publicada em 1994.
Brando chegou a fazer ainda alguns filmes que
destoavam de seu currículo, como "Casa de Chá do Luar de Agosto" (1956),
onde curiosamente vivia um asiático, e o musical "Eles e Elas" (1955),
onde cantou ao lado de Frank Sinatra.
Brando ganhou dois Oscars
de melhor ator: em 1955 pelo retrato de um ex-boxeador fracassado, em
"Sindicato de Ladrões", de Elia Kazan, e em 1972, com o papel de Don
Corleone em "O Poderoso Chefão", que marcou a recuperação de sua
carreira.
Seu poder de atrair público diminuiu nos anos 60 devido à sua participação em filmes considerados medíocres.
Embora
tenha merecido o Oscar de "O Poderoso Chefão", Brando não compareceu à
cerimônia de entrega e enviou no seu lugar a [suposta] índia Sacheem
Littlefeather, na verdade uma atriz hispânica, para manifestar ao
público o descontentamento com a forma como Hollywood tratava os nativos
americanos.
A polêmica cercou sua vida após a estréia do
polêmico drama erótico "O Último Tango em Paris" (1973), de Bernardo
Bertolucci, no qual interpretou um homem de meia-idade, desorientado
após o suicídio da esposa.
Reconciliado com a fama, Brando que
dizia atuar para "sobreviver" fez o filme mais comercial de sua
carreira, "Superman - O Filme" (1978), de Richard Donner, no qual
interpretou Jor-El, o pai do super-herói, antes de encarnar o
desesperado coronel Kurtz em "Apocalypse Now" (1979), de Francis Ford
Coppola.
Depois disso, anunciou repentinamente sua aposentadoria
para se dedicar a fundo às causas sociais, embora tenha continuado
fazendo aparições esporádicas no cinema. Seu último filme, "A Cartada
Final", estreou em 2001.
No fim da vida, Marlon Brando tornou-se o herói trágico de uma sórdida história familiar.
Ele
teve pelo menos nove filhos, frutos das várias relações que mantinha
com mulheres geralmente morenas e exóticas, entre elas as atrizes
porto-riquenha Rita Moreno e a mexicana Movita Castenada.
Em
1990, seu primogênito Christian, fruto do casamento com a primeira
esposa, a atriz Anna Kashfi, assassinou o namorado de outra filha do
ator, Cheyenne, nascida de sua relação com a taitiana Tarita Teriipaia.
Christian passou cinco anos na prisão e Cheyenne se suicidou em 1995,
depois de uma longa depressão.
Obeso, Brando chegou a pesar 160
quilos e voltou a ficar recluso na Polinésia francesa, paraíso que o
encantou durante as filmagens de "O Grande Motim" (1962) onde ele
conheceu Tarita e onde costumava passar longas temporadas desde que
comprou a ilha de Teti'aroa, em 1966.