sexta-feira, 8 de julho de 2011

Houve uma vez um... verão do amor



A onda hippie varreu os Estados Unidos no fim da década de 1960 com muitas cores, drogas e psicodelia. O movimento "Paz e Amor" renovou a rebeldia, ajudou a forjar a contracultura e se espalhou pelo mundo


Por Márcio Pinheiro

Se o movimento hippie tem uma certidão de nascimento, é esta: 14 de janeiro de 1967, no parque da Golden Gate, em São Francisco. Foi lá que uma multidão calculada em 30 mil pessoas se reuniu para uma das manifestações mais amplas e democráticas de todos os tempos, o Human Be-In, criando não apenas um evento político-cultural mas também dando forma ao que depois seria conhecido como happening - e que se transformaria num símbolo de todos os protestos. O caráter anárquico fez com que num mesmo local estivessem reunidos representantes das tribos mais distintas: dos motoqueiros durões do Hell’s Angels ao pacificismo dos flower-power, havia espaço ainda para os que defendiam o despertar de uma nova consciência ecológica, o uso de drogas como forma de expansão da mente ou o aprofundamento de uma política voltada mais para o coletivo e menos para o individual. Com lideranças como o poeta beat Allen Ginsberg, o evento foi uma ousada e inteligente operação de marketing. Combinando energia psíquica e orientalismos zen-budistas, os participantes se propunham a fazer levitar o Pentágono entoando por horas seguidas a sílaba mágica "Om". A plateia daquele encontro da tarde-noite de um sábado do inverno californiano seria o retrato de uma época em que ninguém poderia ser alienado e também uma prévia do que se convencionou chamar de "Verão do Amor", revelando para o público atos e expressões como contracultura e psicodelia. Timothy Leary, o papa do LSD, estava lá e pregou: "Turn on, tune in, drop out". Mas era preciso mais do que ficar ligado, sintonizar-se e saltar fora do sistema.

Os hippies surgiram como uma espécie de linha evolutiva dos beatniks dos anos 50. A "gestação" ocorreu a partir de meados da década seguinte, no entorno do cruzamento entre as ruas Haight e Ahsbury, em São Francisco. Eram próximos também dos yippies, membros do YIP, Youth International Party, ou Partido Internacional da Juventude. Na teia de grupos da contracultura engajada havia ainda os Panteras Negras, os Diggers e muitos outros. "Mesclamos a política da nova esquerda com um estilo de vida psicodélico. Os hippies são os verdadeiros revolucionários da Era de Aquário", dizia Jerry Rubin, ex-líder estudantil e um dos fundadores do YIP. Entre os mandamentos hippies estavam a contestação do establishment, a descrença em quem tinha mais de 30 anos e a defesa do amor livre e da não-violência. Gregários, os "bichos-grilos" pregavam a convivência em comunidades. Pacifistas, eles combatiam o envio de soldados para a Guerra do Vietnã (1959-1975) e qualquer forma de repressão aos movimentos sociais. Entre os símbolos da nova era estavam a mandala do desarmamento nuclear, adotada como sinal de paz, o lema "Faça amor, não faça guerra" e o cabelo comprido. "Nosso cabelo indica desrespeito pela América, uma sociedade racista de cabelo curto. O cabelo comprido é vital. Temos a pele branca como nossos opressores. O cabelo comprido nos une na oposição", dizia Jerry Rubin.

O cabeludo Abbie Hoffman estava a seu lado. Juntos, eles inseriram rebeldia e ironia no movimento político, como a chuva de dinheiro no pregão da bolsa de Wall Street (para denunciar que embora os operadores manipulassem milhões, estavam interessados na ninharia das moedas jogadas), a ameaça de jogar LSD nas caixas d’água de São Francisco e a invasão da convenção do Partido Democrata que indicaria o candidato a presidente na eleição de 1968 (leia abaixo). A marginalidade e o gosto por transgredir já estavam presentes na vida de Hoffman desde cedo. Para começar, seu sobrenome nunca foi esse. Era Shapoznikoff. Seu avô, judeu, entrou nos Estados Unidos vindo da Europa depois de roubar os documentos de um alemão chamado Hoffman. Abbot Howard Hoffman nasceu em Worcester, Massachusetts. Aos 17 anos foi detido pela polícia por dirigir sem habilitação. Na juventude, teria uma vida escolar e universitária sem nenhum brilho, mas ganharia destaque a partir do começo dos anos 60 como um emergente líder dos direitos civis. Carismático e bem-humorado, teria papel decisivo ao inspirar uma nova política baseada na psicodelia e no LSD. Caberia ainda à dupla Hoffman/Rubin o esforço permanente de manter os jovens rebeldes cabeludos militantes, já que nem sempre o ativismo era tão interessante quanto uma viagem de ácido ouvindo música ao lado dos amigos.

Sintetizado pela primeira vez em 1938 pelo químico suíço Albert Hofmann (nenhum parentesco com Abbie), o LSD teve suas propriedades alucinógenas descobertas por acaso, já que, em suas primeiras pesquisas, o químico o utilizava como recurso psicoterapêutico e para tratamento de alcoolismo e disfunções sexuais. Até o começo da década de 1960, o LSD não seria lembrado. Mas, em 1961, o professor Timothy Leary passaria a estudar na Universidade de Harvard os efeitos da droga em voluntários, estimulando o uso do LSD como forma de criar uma percepção mais acurada de tudo ao redor. A psicodelia ganharia uma trilha sonora com bandas como os Warlocks, Jefferson Airplane, Grateful Dead e mais tarde, Beatles, The Doors, e Pink Floyd, sem falar em Jimi Hendrix e Janis Joplin, que deram uma nova dimensão à música pop e ajudaram a difundir o movimento hippie. O musical Hair, que estreou na Broadway em abril de 1968, também cumpriu esse papel. Outro símbolo do período é o filme Easy Rider (no Brasil, Sem Destino), lançado nos Estados Unidos em setembro de 1969. O longa-metragem narrava as aventuras de Peter Fonda e Dennis Hopper, dois caubóis contemporâneos que em cima de suas motos vagavam pelas estradas americanas descobrindo e relatando as tensões do país naquele momento. Tanto o musical quanto o filme refletem o preconceito que os hippies enfrentaram. O presidente Richard Nixon estava no topo da lista daqueles que desprezavam os bichos-grilos.

A confluência de tantos fatores - artísticos, culturais, comportamentais - teria reflexo nas relações afetivas. A repressão seria questionada e os prazeres do sexo, descobertos. O amor livre não defendia relacionamentos efêmeros ou duradouros, mas sim que uma relação de amor aceita livremente por dois (ou mais) parceiros não deveria ser regulada por convenções. Banhos ao ar livre e cenas "libidinosas" protagonizadas pela plateia do festival de Woodstock, em agosto de 1969, chocaram muita gente. Cerca de 500 mil pessoas se reuniram para ouvir as canções de alguns dos maiores mitos do movimento hippie.

Também a religião passaria por uma transição. Dois meses depois de Woodstock, seria realizado, em São Francisco, o Holy Man Jam, um encontro das principais "tendências espirituais" da comunidade. Duas mil pessoas acompanharam os ensinamentos de gurus como Alan Watts, adepto do zen-budismo. Nesse caldo tudo se misturava, de parapsicologia a vodu. "Foi um tempo de muita agitação e criatividade. Minha geração queria mudar não só o mundo como a própria vida de cada um", afirma o escritor e jornalista Luiz Carlos Maciel, de 71 anos, que atuou no Pasquim. A partir da década de 70, a onda hippie aos poucos deu lugar à sua antítese. E os yuppies se projetaram nos anos 80. Era a juventude mais interessada numa carreira de sucesso.

Mas o legado bicho-grilo renovou o pacifismo e as preocupações ambientais. Os ativistas ensinaram que uma das principais armas na luta política e social deveria ser a imprevisibilidade. Incitando os jovens a se unirem e a criarem suas próprias revoluções imediatas, os hippies globalizaram uma estratégia "político-psicodélica" que, dos Estados Unidos, atingiu a Europa, a América Latina e qualquer outro lugar onde houvesse inconformismo. "Os hippies foram os inspiradores de todas as mutações da alma presentes neste século 21 tendo como base a valorização dos direitos humanos", diz o músico Jorge Mautner, que se lembra do período entre 1967 e 69 como bastante turbulento. Para citar apenas alguns marcos, no Brasil, a sociedade enfrentava o endurecimento da ditadura militar; nos EUA, a Guerra do Vietnã e os direitos civis mobilizavam os protestos; na França, os conflitos de maio de 1968.

"A grande revolução foi a liberdade. A verdade de Sartre (Jean-Paul, filósofo) de que somos livres para inventar a nós mesmos foi posta em prática. Houve uma contestação da maneira de viver vigente, uma subversão de valores...", diz Maciel. "E a gente se divertiu muito!"


Allen Ginsberg (1926-1997)

Maior nome da poesia beat, com uma carreira que durante mais de cinco décadas influenciou autores e artistas nos Estados Unidos. Esteve ao lado de Timothy Leary na divulgação do Human Be-In e do uso do LSD. Até o fim da vida, em abril de 1997, manteve-se na linha de frente dos acontecimentos políticos e culturais


Abbie Hoffman (1936-1989)

O movimento hippie em pessoa. Foi o maior ativista político dos EUA nos anos 60, influenciando jovens de todo o mundo. Nos anos 70, dedicou-se a dar palestras sobre ecologia. Tinha 52 anos quando foi encontrado morto em casa, depois de tomar calmantes. Não se sabe se foi suicídio ou acidente


Jerry Rubin (1938-1994)

Destacou-se como líder estudantil e ativista político nos anos 1960, encabeçando protestos que pediam o fim da Guerra do Vietnã. Após a era hippie, a partir dos anos 80, transformou-se num dos principais executivos dos Estados Unidos, sendo um dos primeiros investidores da Apple Computer


Richard Nixon (1913-1994)

A representação do mal na política americana. Eleito presidente em 1968 e em 1972, é o único na história do país a renunciar, depois das denúncias de seu envolvimento no escândalo de Watergate


Timothy Leary (1920-1996)

O papa do LSD incentivou os "benefícios" da droga. Psicólogo e escritor, foi tachado por Nixon como "o homem mais perigoso da América". Nos últimos anos de vida interessou-se pelos avanços cibernéticos e da tecnologia. Já doente terminal de câncer, escreveu sobre a morte


Woodstock

Um dos maiores e mais importantes festivais de música da história, realizado numa fazenda na cidade rural de Bethel, Nova York, entre 15 e 18 de agosto de 1969. Janis Joplin, Jimi Hendrix e Joe Cocker estavam lá


Tempos de luta

Movimento enfrentou a repressão policial


As manifestações populares, especialmente em defesa dos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã, ganharam outra projeção. E os conflitos entre os hippies e os policiais tornaram-se cada vez mais frequentes. Se a repressão tinha como desculpa o uso das drogas e a vadiagem para combater os jovens isoladamente, juntos os rebeldes passaram a politizar as manifestações. Se o slogan era "Paz e Amor" e a resposta quase sempre era dada pelos cassetetes, a tréplica vinha em forma de ironia, de deboche. Dois confrontos, em especial, entraram para a história.

O primeiro foi o da Convenção Nacional Democrata, no Anfiteatro Internacional em Chicago, Illinois, entre 26 e 29 de agosto de 1968. Eram tempos de revolta, potencializados pelos recentes assassinatos de Bob Kennedy (em junho) e de Martin Luther King (em abril). Nesse clima, os hippies pretendiam celebrar em Chicago "A Festa da Vida", reunindo mais de 10 mil jovens que lá estivessem para se posicionar contra a guerra, o governo americano e qualquer resquício de "autoridade burguesa". Confirmando o que se esperava, o pau comeu, a cidade virou um pandemônio e os hippies, liderados por Abbie Hoffman e Jerry Rubin, lançaram o porco Pigasus candidato a presidente, o primeiro de uma extensa lista de animais que posteriormente "disputariam" mandatos eletivos. Se durante o cerco de Chicago o mal era representado pela figura do presidente democrata Lyndon Johnson (alçado ao cargo após o assassinato de John F. Kennedy), a seguir a situação seria ainda pior com a eleição do republicano Richard Nixon. Menos de dois anos depois dos acontecimentos de Illinois, a violência se transferiria para a Universidade de Kent State, em Ohio. Em 4 de maio, uma manifestação contra a Guerra do Vietnã e a invasão do Camboja seria dissolvida pela Guarda Nacional, uma força militarizada a serviço do governo. O enfrentamento teve como resultado quatro estudantes mortos, nove feridos e um recado bem explícito do novo presidente: "Eles não passam de hippies sujos. Vamos mandá-los para o inferno, onde quer que os encontremos".


O pesadelo hippie

A loucura de Charles Manson

Se o movimento hippie tem uma certidão de óbito é esta: 9 de agosto de 1969, quando um grupo de seis seguidores de Charles Manson invadiu a mansão 10050 na Cielo Drive, Bel Air, Los Angeles. Os fanáticos fizeram cinco vítimas. A mais famosa, a atriz Sharon Tate, de 26 anos, estava grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski. Seu corpo foi perfurado 16 vezes por uma lâmina de baioneta e depois pendurado no teto por uma corda. Os integrantes da Família Manson - como eles se autodenominavam - ainda utilizaram o sangue de suas vítimas para escrever nas paredes da casa "Helter Skelter" e "Political Piggy". Manson escancarava o lado mais obscuro do movimento hippie. Aos 34 anos, ele era o líder de uma seita defensora do amor livre e adoradora de ritos satanistas. A imitação dos cabelos compridos, as roupas coloridas e o convívio em comunidade no Rancho Spahn, perto de Los Angeles, era tudo que eles haviam incorporado, já que faziam uma leitura torta e equivocada dos principais preceitos hippies. A começar pelo sustento, deixando de lado ensinamentos como plantar o que iria ser usado como alimento e valorizar o artesanato para optar pelos pequenos furtos em supermercados e o roubo de carros. Pacifismo, então, era um planeta distante. Fascista, racista e violento, Manson pretendia começar uma guerra que, segundo ele, seria a maior já travada, batizada de Helter Skelter. Trata-se do mesmo título de uma música dos Beatles que, segundo ele, trazia mensagens subliminares pregando o ódio aos negros. Hoje, aos 75 anos, Manson segue tentando obter a liberdade condicional. Na Corcoran State Prison, na Califórnia, ele passa o tempo tocando seu violão e ainda atrai seguidores. Os crimes abalaram os Estados Unidos e assustaram hippies e não-hippies. Seria o desfecho trágico para uma era de esperança que, menos de uma semana depois, teria com os shows de Woodstock a perspectiva de tempos libertários e revolucionários. O animadíssimo festival (que teve apresentações de grupos como Crosby, Stills, Nash & Young, The Who e Credence Clearwater Revival) seria o último suspiro. Mas o sonho já havia acabado.


Universo bicho-grilo

O estilo hippie, ao extremo


Modo de vida

Moravam em comunidades, de preferência fora das cidades, onde pudessem produzir o próprio alimento. O pouco dinheiro vinha de artesanato. Os moradores, muitos vegetarianos, dividiam funções e as decisões eram tomadas em conjunto.


Religião

Eram críticos às religiões ocidentais e simpáticos às crenças orientais, como o budismo. Valorizavam a meditação e novas formas de busca interior.


Filosofia

Exaltavam o pacifismo e o amor livre. Os ideais anarquistas vigoravam nas comunidades igualitárias. Eram hedonistas e cultuavam o prazer sem culpa, fosse ele físico, sexual ou intelectual.


Vestuário

Usavam roupas velhas, desgastadas, feitas de brim e de couro. Gostavam de cores berrantes e chamativas, como no tie-dye, e muitas camisetas com mensagens políticas e pacifistas.


Aspecto pessoal

Cabelos compridos para homens e mulheres. Não se interessavam por depilação e produtos de beleza como maquiagem, xampus e cremes.


Sons

Curtiam rock dentro de uma vertente mais psicodélica como Grateful Dead, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Doors, Pink Floyd e Beatles, além de artistas engajados como Bob Dylan e Joan Baez.

Família

Em geral, os amigos substituíam os parentes. Ainda assim, formavam pequenos núcleos com casais e filhos. Havia um desprezo pelas convenções sociais como papéis, documentos e certidões.


Drogas

Uso intenso e incentivado de substâncias como marijuana (maconha), haxixe, e alucinógenos, como o LSD, que fossem úteis na "liberação da mente".

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