domingo, 13 de maio de 2012

Clarice Lispector



Eu não escrevo por querer não. Eu escrevo porque preciso. Senão o que fazer de mim?
Tudo o que fico sendo ou agindo ou pensando tem acompanhamento musical. Há dias inteiros e consecutivos que são acompanhados por poderoso e soturno órgão. Quando eu estou difícil para mim mesmo o acompanhamento é de quarteto.
Quase não sei o que sinto, se na verdade sinto. O que não existe passa a existir ao receber um nome. Eu escrevo para fazer existir e para existir-me. Desde criança procuro o sopro da palavra que dá vida aos sussurros. Só não me tornei um verdadeiro escritor porque me perco demais entre as vidas e minha vida. E porque também preciso pôr ordem na minha vida, nesse caos de que é feita esta vida grave e inassimilável. Não consigo me associar á minha vida.
Grave como um menino de treze anos. Grave como uma boca aberta cantando. A anunciação.
Que desaforo: me fazer esperar.
Ver é milagre. Como descrever uma pirâmide?
Como descrever uma luz acesa?

Livro – Um sopro de vida

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