domingo, 6 de novembro de 2011

MITOS

              Por que precisamos deles?

Você não precisa ser fã de Senna ou James Dean para descobrir que é impossível viver sem eles. Há milênios mitos organizam o mundo em que vivemos e nos ajudam a entendê-lo melhor - não importa o rosto que eles tenham.

Por Vinícius Romanini


Há dez anos, o mundo inteiro assistia, ao vivo, ao nascimento de um mito. Senna, o piloto morria para dar lugar a um herói nacional

O carro de Ayrton Senna bateu a 300 km/h contra o muro de proteção de curva Tamburello, na sétima volta do Grande Prêmio  de Ímola, na Itália. Eram 14h13 do dia 1° de maio de 1994, um domingo, e o laudo da autópsia afirma que Senna morreu na hora. Até aquele instante, Ayrton era considerado o melhor piloto da história da fórmula 1 e o orgulho dos seus milhões de fãs brasileiros graças a dez anos de uma carreira vitoriosa: três títulos mundiais, 65 pole positions e 41 vitórias. Ao morrer publicamente na pista de Ímola, diante das câmeras de televisão, a imagem de Ayrton Senna passou por uma veloz transformação: de piloto vencedor e determinado, bom moço e simpático nas aparições públicas, Senna assumiu rapidamente as feições de um herói nacional, um guerreiro que, depois de empunhar a bandeira verde-e-amarela ao final de tantas batalhas vitoriosas, agora via chegar seu momento trágico. Na curva Tamburello tombou o piloto e nasceu o mito.
Não é sempre que um mito nacional nasce. Ao contrário, é preciso uma junção de fatores muito grande e que se repete poucas vezes na história de um povo. No caso de Senna, eles estavam todos presentes, ainda que ninguém os notasse. O país havia passado pela frustração de eleger um presidente com panca de herói, Fernando Collor, cujo governo havia sido um fiasco histórico. Os jovens com caras pintadas de verde-e-amarelo que haviam saído das ruas para protestar contra a corrupção e pedir o impeachment de Collor estavam com patriotismo á flor da pele. Eles chamavam por justiça, por mudanças profundas na sociedade, mas estavam órfãos de modelos que pudessem ser evocados. Que figura histórica brasileira poderia simbolizar os desejos daquela geração, dez anos atrás? Garibaldi? Tiradentes? Dom Pedro I? Luís Carlos Prestes? O Brasil não tinha personagens com força necessária para a grande catarse cívica presa na garganta da geração dos caras-pintadas que haviam deposto Collor. Não até aquele fatídico 1° de maio de 1994.

GUERREIRO E HERÓI. Segundo o jornalista do livro Ayrton Senna: Guerreiro de Aquário, que interpreta a importância de Senna sob o ponto de vista da mitologia e da psicologia, o piloto mescla dois dos mitos mais fortes da História da humanidade, que remontam ás áreas mais primitivas da nossa cultura: o herói e o de guerreiro. "O herói é a figura que consegue manter o controle mesmo diante de situações adversas, vencendo obstáculos difíceis e realizando façanhas que trazem o bem para a coletividade. O guerreiro possui coragem e consegue vencer inimigos poderosos, trazendo orgulho e mudando o destino de seu povo. Na nossa sociedade, fortemente influenciada pelos meios de comunicação, esses mitos são refletidos em celebridades, como esportistas ou artistas famosos, que acabam ganhando grande influência sobre os jovens. Afinal, os jovens estão sempre procurando modelos nos quais se espelhar", explica Edvaldo.
Entender a influência dos mitos na vida das pessoas e das sociedades é muito difícil porque ninguém está livre deles,

Cada mito remete a um modelo de conduta que foi cunhado em tempos imemoriais, antes mesmo da invenção da linguagem

mesmo quando se propõe a estudá-los. Os mitos são como lentes de óculos que precisamos usar para exagerar as coisas, que determinam nossa visão de mundo, mas que estão tão próximos aos nossos olhos que não conseguimos notá-los. É por isso que o mitólogo americano Joseph Campbell, autor do clássico O poder do Mito, costumava afirmar que só conseguimos entender como os mitos agem sobre nossas vidas quando começamos a ler e estudar os mitos de outros povos. Aí descobrimos, muitas vezes espantados, que mitos são capazes de unir multidões em torno de um mesmo objetivo, de inspirar grandes obras de arte e produzir maravilhas técnicas e científicas. "Os mitos são essências na psicologia humana. São como sonhos coletivos que regulam nossa adaptação á realidade", afirma a psicóloga e escritora Lucy Pennam especialista em mitos brasileiros.
Mas os mitos não produzem apenas imagens coletivas positivas. Agindo numa região de nossos espíritos anteriores e muitas vezes inacessíveis ao pensamento racional, os mitos também podem provocar guerras sangrentas entre povos, estimular a violência e justificar perseguições e injustiças. Não há terrorismo, guerra ou genocídio que não esconda, sob os corpos mutilados e sangue derramado dos inocentes, um mito justificando os atos mais cruéis que o homem possa cometer. "Os mitos não são nem bons nem maus. São narrativas que descrevem padrões de ação, ou seja, formas de lidar com a imprevisibilidade da vida. Os mitos formatam nossa maneira de agir diante das diversas situações que apresentam. Eles nos oferecem uma ordem onde, sem eles, só veríamos o caos", afirma o psicólogo canadense Jordan Peterson, um dos maiores estudiosos atuais do mecanismo de ação dos mitos da psique humana.

MORRER PARA VIVER. Para compreender o poder ao mesmo tempo construtivo e aniquilador dos mitos, é preciso antes, conhecer uma entidade ainda mais fundamental de nossa psicologia: os arquétipos. Essa palavra deriva do grego “modelo” ou “padrão” e foi utilizada pelo psicólogo suíço Carl Jung para designar as estruturas mais fundamentais que sustentam a cultura humana, em qualquer época ou lugar. No livro O Homem e seus Símbolos,

Celebridades que sofrem mortes prematuras, como Lennon e Marilyn, têm mais chances de serem alçadas á condição de lendas

Jung mostrou que alguns modelos são tão fundamentais que remetem a um estágio de nossa espécie anterior á própria  invenção da linguagem, perdendo-se em tempos imemoriais.
Os arquétipos são tão essenciais que dizem respeito á própria constituição biológica de nossa espécie e a maneira com que nosso aparato perceptivo nos permite entender o mundo ao nosso redor. Eles nascem do ciclo de vida e morte a que estamos todos condenados, do nosso ritmo metabólico e da nossa maneira de alimentar e produzir. É por isso que os mitos ligados á morte – ainda mais a morte prematura e violenta, que interrompe a ordem natural das coisas – são necessários: eles nos ensinam a lidar com as tragédias, a transformar a perda irreparável em ganho ao menos no plano simbólico. A pessoa deixa de existir para habitar o panteão das divindades e heróis, como foi o caso de Cristo, Gandhi, Senna e outros que morreram violentamente.
As mitologias, que nascem do manancial dos arquétipos, variam de acordo com o contexto cultural e histórico e podem, ás vezes, assumir caminhos tão diferentes que acabam determinando contrastes essenciais entre os povos ou mesmo entre civilizações. A muitas e decantadas diferenças entre as civilizações ocidental e oriental, por exemplo, só podem ser compreendidas se vermos a questão sob o prisma das mitologias que as constituem. Por outro lado, países vizinhos e povos que tiveram uma mesma origem étnica, como judeus e palestinos ou portugueses e espanhóis, podem assumir características coletivas que os diferenciam enormemente entrei si de acordo com os mitos que cultivam.

DANÇA CÓSMICA. Um dos arquétipos fundamentais para a compreensão dos mitos é o da morte e renascimento, que surge de nossa relação com ciclos da natureza e com nossa sobrevivência com coletores de alimentos. Nos povos mais antigos, esse arquétipo aparece nos mitos que descrevem o universo como o resultado de uma dança cósmica de contínua recriação. Na mitologia hindu, por exemplo, essa é a função do deus Shiva, princípio  criador e aniquilador do mundo. Na Grécia antiga, esse mesmo arquétipo sustentava os rituais dionisíacos chamados Mistérios de Elêusis, que celebravam a morte da vegetação no outono (principalmente do trigo e da uva, que eram a base da alimentação dos povos mediterrâneos) e sua ressurreição na primavera. Na Síria, era o Deus  Adônis que representava o espírito do grão de trigo, que precisava morrer para salvar a humanidade. O trigo, ceifado violentamente pelo homem tombava na terra para que dele surgisse o pão que haveria de alimentar a todos.
Esse mesmo arquétipo, agora plasmado por influência do zoroastrismo persa, produzia na vizinha Palestina do século 1 a narrativa da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, que tem o pão e no vinho sua maior simbologia. “Assim, a velha teoria mágica das estações foi substituída, ou complementada, por uma teoria religiosa”, explica o inglês James George Frazer, pioneiro no estudo dos mitos em seu ensaio O Mito de Adônis. As religiões, portanto, nada mais são do que mitologias que procuram apresentar respostas para as mesmas questões essenciais: quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos. “O mito exprime plástica e dramaticidade o que a metafísica e a teologia definem dialeticamente”, escreveu outro célebre mitólogo do século 20, o remoto Mircea Eliade, no ensaio A Função do Mito.

Os mitos ajudam a entender um pouco do mundo que nos cerca, organizando nossa realidade. Sem eles, viveríamos nos caos

Os mitos nada mais são, portanto, do que roupagens feitas de narrativas e personagens que usamos para vestir nossos sutis e diáfanos arquétipos, dando a eles uma forma visível e palpável. Assim como as roupas variam tremendamente de uma cultura para outra, e também numa mesma cultura para outra, também numa mesma cultura dependendo da moda de cada época, os mitos se mostram ainda muito diferentes nas diversas culturas humanas. Essa é a mais provável explicação para as impressionantes semelhanças entre mitologias produzidas em épocas e lugares tão distantes quando, por exemplo, a Índia, a Grécia e a África dos orixás, que no Brasil se manifesta no candomblé. O antropólogo francês Pierre Verger, que estudou por décadas os deuses iorubas presentes no Brasil, mostrou, por exemplo, que o africano Xangô e o grego Zeus têm os mesmo atributos e simbologias, representando o arquétipo do deus-pai.
Outra vantagem de encarar os mitos metaforicamente, como roupas que encobrem os arquétipos, é que eles, dependendo do momento, podem aparecer mais ou menos coloridos, cheios de adereços ou numa versão básica. O mais importante, porém, é que nos permite entender que, como a moda das roupas, os mitos estão sempre em evolução. Um mito cristalizado, estático, está morto. Ele deixa de cumprir seu papel de mediador entre a realidade caótica vivida pela História e o mundo dos símbolos culturais que dão coesão aos povos, criando o sentido de unidade e compartilhamento das mesmas experiências. É o que aconteceu com a mitologia clássica grega, por exemplo, hoje conhecida apenas por estudiosos eruditos, literatos desejosos de adornar suas obras com referências clássicas ou, no máximo, por publicitários que usam os deuses e heróis do Olímpo para batizar carros, relógios e materiais de limpeza. A degradação dos mitos antigos e sua substituição por novas narrativas e personagens é um fenômeno bastante estudado por antropólogos e sociólogos, que assim conseguem entender melhor inclusive fatos históricos. Não é possível compreender, por exemplo, o fascínio que beirava o delírio coletivo que Hitler conseguiu angariar do povo alemão, no final dos anos 30, sem conhecer a mitologia nórdica. Da mesma forma, em praticamente  todas as nações podem ser encontrados personagens históricos marcantes que, de uma forma ou de outra, foram mitificados, seja por um breve e dramático período (como foi o caso de Fernando Collor, no Brasil), seja para figurar para sempre como exemplo de herói da pátria como foi George Washington para os americanos, Mão Tsé-tung para os chineses, Kemal Ataturk para os turcos e Simon Bolívar para os venezuelanos.

UM PAÍS ÓRFÃO. O Brasil não teve, em sua história, figuras políticas fortes o suficiente que pudessem ter assumido o papel de modelo ou padrão reservado aos mitos. Não que o tempo dos mitos patrióticos tenha desaparecido em nossas sociedades cada vez mais materialistas e globalizadas, como se poderia especular. Basta ver que, na África do Sul, Nelson Mandela foi alçado á condição de mito vivo. “A variedade da cultura brasileira, marcada por muitos regionalismos, dificulta o surgimento de mitos nacionais, principalmente em torno de uma personalidade”, afirma a psicóloga Lucy Penna. Segundo ela, é por isso que vemos a figura de Chico Mendes ganhar a dimensão de herói mitológico entre os povos da Amazônia, onde ele pode ser tomado como um modelo, mas sem ter o mesmo apelo no Sul e no Sudeste.
O exemplo de Chico Mendes mostra bem como no Brasil os mitos são produções regionais. Em São Paulo, o mito mais forte é o do bandeirante observador, muito mais interessado em conseguir riquezas do que cultivar qualquer romantismo ecológico. Já o mito do malandro ocupa o imaginário dos cariocas, como não se cansam de exaltar os sambistas da cidade. No Nordeste, segundo Lucy

Graças aos meios de comunicação, deuses e heróis de narrativas tradicionais estão sendo trocados por astros do show business

Penna, um mito poderoso é o do brincante, um tipo de trovador e irreverente que inspira os homens nordestinos. Também é forte, em várias regiões brasileiras – principalmente no Norte e Nordeste -  a figura feminina da “senhora das águas”, que possui tanto a força das marés violentas quando a doçura e o mistério dos córregos escondidos na mata. Ela pode assumir a forma de lemanjá  no candomblé  ou a Lara indígena, mas também a de Nossa Senhora Aparecida -  a estátua negra retirada do fundo do rio - , bem como a Nossa Senhora de Nazaré, que protege os navegantes.


MITOS Á VENDA. Disputando o imaginário popular com os mitos políticos e símbolos regionais estão os cada vez mais numerosos mitos artificiais produzidos pelos meios de comunicação, como o cinema, a televisão, o mercado fonográfico e, mais recentemente, a Internet. Aproveitando-se  da decadência dos mitos tradicionais, como as grandes narrativas religiosas, a indústria cria e vende mitos a velocidades cada vez maiores, substituindo-os assim que começam  a apresentar desgaste, como se fossem produtos expostos na vitrine. Essa é a lógica  do showbiz, como mostrou o filósofo francês Edgar Morin – um dos mais importantes pensadores vivos da atualidade – em seu sugestivo ensaio Mito e Sedução no Cinema. Escrito em 1927, o texto expõe o mecanismo de criação dos grandes mitos do cinema de Hollywood, bem como sua evolução desde a década de 20.
Uma das conclusões de Morin é que os astros do cinema, antes arrebatadores como Rodolfo Valentino ou Marylin Monroe, foram se tornando cada vez mais mundanos e débeis enquanto a lógica burguesa de transformar tudo mercadoria os consumia. No final, os mitos perdem seu poder de modelo a ser seguido e se transformam em simples celebridades, disponíveis para autógrafos em qualquer festa de lançamento  de uma grande distribuidora. Joseph Campbell também identificou o desaparecimento da aura mágica que envolvia os mitos do cinema, reputando isso ao aparecimento da televisão. Afinal, ir ao cinema é um ritual semelhante a visitar um templo: há reverência, silêncio e respeito diante da imagem gigantesca do ator projetada na tela. Coma televisão, ao contrário, o telespectador é o senhor que escolhe e controla o que deseja ver.
O enfraquecimento das grandes narrativas tradicionais, e sua substituição por mitos descartáveis, foi uma das preocupações de Campbell. Os efeitos podem ser vistos nas jovens gerações, como a busca por experiências místicas induzidas pelas drogas, a formação de gangues e o surgimento de formas de expressão violentas, como a vandalismo. Para ele, a principal causa disso, na maior parte das sociedades de religião monoteísta,

O maior poder dos mitos é o de arregimentar multidões. Para o bem, como foi o caso de Gandhi, ou para o mal, como Hitler

 foi o fato de a religião deixar de falar diretamente aos jovens porque se tornou desgastada e obsoleta. “A única maneira de conversar uma velha tradição é renová-la em função das circunstâncias da época. No templo do Velho Testamento, o mundo era um pequeno bolo de três camadas, que consistia em algumas centenas de milhas em torno dos centros do Oriente Próximo. Ninguém tinha ouvido falar dos astecas ou chineses. Quando o mundo se altera, a religião tem de se transformar”, escreveu.
Para Campbell, o único caminho para a humanidade sair ciclo cruel de guerras, terrorismos e abismos culturais é embarcar num processo de criação de mitos que possam falar a todos nós, independentemente das origens étnicas e culturais. “O único mito de que valerá a pena cogitar, no  futuro imediato, é o que fala do planeta, não da cidade, não desse ou aquele povo, mas do planeta e todas as pessoas que estão nele. Essa é a minha ideia fundamental do mito que está por vi”, afirma. O jornalista e escritor Edvaldo Pereira Lima, que além de estudar a vida de Ayrton Senna é também autor de outros livros relacionando os mitos com a sociedade moderna, tem uma opinião parecida. Mas ele também acredita que os meios de comunicação, ao mesmo tempo que criam mitos descartáveis, ajudam ainda na construção de uma mitologia planetária.
”A vida é um grande experimento em evolução. Ela é múltipla, diversificada, complexa. Cada ângulo de percepção pode ser válido para formar o grande quadro completo que só aos poucos enxergamos”, afirma Edvaldo. Para ele, a grande mensagem deixada por Ayrton Senna foi exatamente essa possibilidade de unirmos, numa mesma visão de mundo, percepções vindas de diferentes culturas. Senna tinha o “romantismo dengoso” do brasileiro, a precião de movimentos que conquistou os ingleses da Williams e a capacidade de concentração de um monge budista. Sua visão de mundo caminhava para a fusão defendida por Joseph Campbell. Talvez por isso o mito Ayrton Senna tenha transcendido os limites do Brasil e conseguido apresentar-se como modelo para outras culturas. De uma certa forma, Senna incorpora, além do mito do herói trágico que tomba no campo de batalha, também o do profeta que anuncia novos tempos.


Revista Terra - Mitos
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