Sim, eu lembro quando o fim do mundo começou. Foi lá por 2001 quando
começamos a organizar os Acampamentos da Juventude do Fórum Social
Mundial em Porto Alegre. Com uma dinâmica de trabalho completamente
horizontalizada, era de ser esperar toda a sorte de organizações e
culturas mais ou menos politizadas. Havia desde a esquerda clássica,
representada pela juventude dos partidos políticos, hierárquica e em
busca de protagonismo exclusivo; os
movimentos sociais do campo, conservadores, programáticos e extremamente
disciplinados; o movimento estudantil universitário, fraticida e
fragmentado pelas disputas partidárias; os anarquistas, os punks, os
nerds e crackers do software livre e uma turma de jovens de classe média
alta, aparentemente hippies, exceto pelo fato de professarem uma
religião/crença comum, cujo principal veículo era “o calendário maia”,
uma mistura de elementos de outras culturas, que era apresentado num
círculo de papelão colorido, com uma tabela de conversão a partir dos
anos do calendário gregoriano.
Esses meninos e meninas, entre eles, algumas figuras mais velhas, cujo perfil era de pessoas bem-sucedidas, livres de suas antigas vidas, mas com disponibilidade financeira para rodar um mundo que dava sinais de mudanças e tudo indicava para outro melhor e possível, agrupavam-se já, sob uma bandeira branca, com três círculos sólidos dentro de outro maior.
Na medida em que o processo Fórum crescia em Porto Alegre – depois esvaziado por protagonistas sem base e iluminados conselhos jedis – esse movimento também crescia, atraindo mais e mais adeptos, chegando inclusive a estabelecer-se em espaço próprio, conhecido como Aldeia da Paz. Ali a comida era vegetariana, os cigarros de ervas medicinais, havia musica e terreno fértil para a proliferação das mais obscuras teses, especialmente a de que hoje, 21 de dezembro de 2012, uma grande hecatombe de proporções cósmicas decretaria o fim do mundo.
O movimento tinha líderes, tratados como mestres que acessaram um conhecimento superior, capazes de determinar, partir das combinações do círculo colorido, signos denominados “kins” com nomes literários e fantásticos, como “Caminhante do Céu Magnético Vermelho” cuja interpretação dizia coisas como: “ Unifico com o fim de explorar/atraindo a vigilância/selo a saída do espaço/com tom magnético do propósito, sou guiado pelo meu próprio poder duplicado”. Apesar de não dizer nada, uma retórica altamente atraente, que misturava termos de outras tradições culturais, ciência e sword & magic para uma juventude despolitizada e desesperada por alguma referência. Uma fórmula que dizia quem era quem e um mapa para caminhar com segurança pelo mundo.
No rico processo político-cultural estabelecido pelo Fórum naquela época, onde o encontro de várias vertentes do pensamento de esquerda no sentido mais lato sensu possível, ampliou a percepção política e enriqueceu enormemente a cultura organizacional, a Aldeia de Paz e seu discurso milenarista new age ficou isolado ao mundo onde não havia dissonâncias. As lideranças do que ficou conhecido como “os maias” chegaram a participar do processo de organização, no entanto, no momento mais complexo, onde 20, 30, 50 mil pessoas aportavam no Parque Harmonia em Porto Alegre para residir, debater, formar alianças, decidir sobre seu futuro como organização, preferiram o lugar seguro dos iguais, isolados na orla do Lago Guayba.
Obviamente com o passar dos anos e o fim do FSM como processo agregador das esquerdas e a 2012 chegando sem nenhum sinal de hecatombe no ar, o discurso do “fim do mundo” foi perdendo força, depois foi adaptado e transformado em “nascimento de uma nova consciência”, até que finalmente, “os maias” desapareceram da ordem do dia e o mundo não acabou.
Agora é esperar que algum aventureiro rico, reúna algum sistema matemático desenvolvido por alguma civilização extinta, funda isso com outras três ou quatro culturas antigas e apareça com um novo mapa para dizer o que as pessoas são e para onde elas devem ir, enquanto o mundo não acaba.

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