sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A serpente que me segue nos últimos dias...

imagem: arte digital de Anja Millen


"A serpente que me segue nos últimos dias carrega três chaves e uma lágrima pesada demais para a floresta.
Meu trajeto tumba adentro sibila como o veneno que a impele para a curva das pequenas sombras. Xifóide, xifóide: nossas colunas, em uníssono, declamam.
Pirâmide secreta ao redor das peles que batem uma na outra como onda. A cavalaria está pronta, prestes a nuvens.
Rastro, rastro azul cobalto de uma manhã vertida no pranto da tempestade anciã. Unhas de adaga romana perfuram o dorso de um manto real. Nenhum soberano sobre a terra seca das palavras. Império é a lágrima da serpente e o chocalho de sua chave tríplice.
Erga-te, demente! As escadas não existem; nossos pés erram por colinas amarelas, semelhantes ao rio das alturas. Cabelos longos, longos demais: cinzas púrpuras.
Habitantes surgem vagarosamente, presos ao horizonte.
Guizo e erva-de-guiné, para a lamúria dos decapitados sobre o líquen: minúsculos roedores, os vocábulos recitados sob as unhas rastreadoras e fermentos de todos os tipos. Cabeças rolam de suas roldanas e esta é a malha pensante de meu discurso sinuoso. Procuro a fonte de um fruto há muito calcificado.

 Erga-te, avulso maquiavélico!
 Os eucaliptos fazem companhia às cabanas, túmulo dos aromas. Surgem das águas, vêm pelo sal mais raro. Punhos caem, pedras levitam. Meu lábio traz a sentença.
Negror, negror dos céus que são teus olhos abertos, imantados na profecia de um diálogo regurgitado. Eis a floresta onde tua lágrima gravita. Plúmbea sinfonia pelas cordas da aurora: tudo que nos resta. Junto a mim, antes teu pó aromático, meu neófito, do que as rudes estrofes que nada mais ressuscitam.”


Andréia Carvalho Gavita/ Paulo Sposati Ortiz*

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