O artista criador da obra se chama Makode Aj Linde. Como se
nota pelo nome, Makode, apesar de viver na Suécia, tem descendência africana.
Dito de outra forma: ele é negro.
O Dia Mundial da Arte tinha como tema exatamente a liberdade do artista frente à sociedade. O que fez Makode? Tomou um tema polêmico: a mutilação genital de mulheres negras na África. Somadas às mulheres mutiladas no Oriente Médio e no sul da Ásia, por ano, são 3 milhões de mulheres que têm seu clitóris cortado, daí haver no Museu obras cujo tema era a circuncisão feminina. O fato é que, apesar de protestos e opiniões contrárias no mundo todo, a prática continua. É cultural, imposta e "aceita" por suas sociedades.
Makode parece querer criar, entretanto, uma obra mais provocadora (ou repulsiva, ou chocante, ou revoltante depende da leitura de cada um): a mulher negra em questão na celebração era ninguém menos do que a dançarina africana Saartjie "Sarah" Baartman, a "Vênus Negra" quem emigrou da África para a Europa em busca de realizar o sonho de ser artista no velho continente, em 1810, mas acabou sendo "escravizada" em shows de quinta em Londres, recebendo cachês ridículos e se valendo da exploração do seu corpo exótico pelo seu patrão e pelos europeus racistas e/ou curiosos.
Sua história de vivência do horror colonialista e racista na Europa do século XIX, foi tema do filme "Vênus Negra", da mesma forma que o bolo celebrativo de Makode provocante-repulsivo-chocante-revoltante. Makode parecia ter em mente, portanto, a dupla liberdade castrada de Sarah Baartman e ainda um terceiro objetivo em mente: o bolo seria cortado na Suécia e, a pedido dele, por uma branca, a sueca Lena Adelsohn Liljeroth's, representante do povo sueco.
Segundo a ministra, ela foi abrir o evento e falar sobre o Dia Mundial da Arte, quando o artista pediu a ela que cortasse o bolo...
A cena, bem como a encenação feita por ele - sim, porque o corpo da mulher era feito de chocolate, mas a cabeça era do próprio Makode, enfiado debaixo da mesa, quem gritava enquanto cada pedaço do corpo era cortado por alguém - deveria então fechar o espetáculo da tortura. A mesma tortura sofrida por estes milhões de mulheres no continente onde Makode tem raízes. A mesma tortura sofrida por outras mulheres, de formas variadas em outros cantos do mundo. O tema racismo estaria então estampado e colocado em discussão num país conhecido como democrático, onde não só mulheres, mas mulheres imigrantes tem em lei seus direitos garantidos.
Cada um de nós é livre para desgostar, odiar, achar feio ou (acho difícil no caso do bolo) admirar a obra de Makode Aj Linde. Isso não importa. Ele não fez sua "Vênus Negra" para ser amada. Ele não berrou no salão de Arte Moderna de Estocolmo tentando fazer uma obra bonita. Sua "Vênus" tem, aliás, quase a mesma cara de suas outras obras: bonecos negros que se confundem com pessoas ou vice-versa.
por Somnia Carvalho
O Dia Mundial da Arte tinha como tema exatamente a liberdade do artista frente à sociedade. O que fez Makode? Tomou um tema polêmico: a mutilação genital de mulheres negras na África. Somadas às mulheres mutiladas no Oriente Médio e no sul da Ásia, por ano, são 3 milhões de mulheres que têm seu clitóris cortado, daí haver no Museu obras cujo tema era a circuncisão feminina. O fato é que, apesar de protestos e opiniões contrárias no mundo todo, a prática continua. É cultural, imposta e "aceita" por suas sociedades.
Makode parece querer criar, entretanto, uma obra mais provocadora (ou repulsiva, ou chocante, ou revoltante depende da leitura de cada um): a mulher negra em questão na celebração era ninguém menos do que a dançarina africana Saartjie "Sarah" Baartman, a "Vênus Negra" quem emigrou da África para a Europa em busca de realizar o sonho de ser artista no velho continente, em 1810, mas acabou sendo "escravizada" em shows de quinta em Londres, recebendo cachês ridículos e se valendo da exploração do seu corpo exótico pelo seu patrão e pelos europeus racistas e/ou curiosos.
Sua história de vivência do horror colonialista e racista na Europa do século XIX, foi tema do filme "Vênus Negra", da mesma forma que o bolo celebrativo de Makode provocante-repulsivo-chocante-revoltante. Makode parecia ter em mente, portanto, a dupla liberdade castrada de Sarah Baartman e ainda um terceiro objetivo em mente: o bolo seria cortado na Suécia e, a pedido dele, por uma branca, a sueca Lena Adelsohn Liljeroth's, representante do povo sueco.
Segundo a ministra, ela foi abrir o evento e falar sobre o Dia Mundial da Arte, quando o artista pediu a ela que cortasse o bolo...
A cena, bem como a encenação feita por ele - sim, porque o corpo da mulher era feito de chocolate, mas a cabeça era do próprio Makode, enfiado debaixo da mesa, quem gritava enquanto cada pedaço do corpo era cortado por alguém - deveria então fechar o espetáculo da tortura. A mesma tortura sofrida por estes milhões de mulheres no continente onde Makode tem raízes. A mesma tortura sofrida por outras mulheres, de formas variadas em outros cantos do mundo. O tema racismo estaria então estampado e colocado em discussão num país conhecido como democrático, onde não só mulheres, mas mulheres imigrantes tem em lei seus direitos garantidos.
Cada um de nós é livre para desgostar, odiar, achar feio ou (acho difícil no caso do bolo) admirar a obra de Makode Aj Linde. Isso não importa. Ele não fez sua "Vênus Negra" para ser amada. Ele não berrou no salão de Arte Moderna de Estocolmo tentando fazer uma obra bonita. Sua "Vênus" tem, aliás, quase a mesma cara de suas outras obras: bonecos negros que se confundem com pessoas ou vice-versa.
por Somnia Carvalho
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